Resenha: Eu me possuo - Stella Florence

Sinopse: “O fato de eu ter me sentido atraída por você, ter ido a sua casa, ter desejado transar com você, não signi fica que você poderia me violentar. Desejar um homem não é o mesmo que desejar ser estuprada por ele. Você disse que tem ido ao meu bar a m de se desculpar por alguma má impressão que tenha deixado em mim. Você não deixou uma má impressão, Gustavo. Você cometeu um crime. Talvez agora você me pergunte por que eu não te denunciei já que você é um criminoso. Naquela noite, eu dei um nó no meu vestido para disfarçar o rasgo que você fez e me limpei como pude no elevador. Fiquei perambulando pela rua meio tonta, depois entrei num táxi e fui para casa da minha avó. Fui direto para o chuveiro limpar aquilo de mim. Me senti suja, me senti culpada, me senti inferior, me senti até ruim de cama: carreguei por muito tempo acusações que serviam para você, não para mim. Minha falta de experiência me fez acreditar que a culpa era minha, que eu apertei algum botão maldito em você e que talvez sexo fosse aquele horror mesmo. Por isso eu me mantive em silêncio. Mas meu corpo gritava!”

O livro conta a história de Karina, uma jovem prestes a fazer 23 anos, estudante de odontologia e estagiária em uma clínica. Mas podia ser a história de qualquer uma de nós, independente da idade, profissão ou classe social. É que o que aconteceu com a protagonista no dia em que completou 17 anos acontece todos os dias com centenas de mulheres no Brasil: ela foi estuprada. Os detalhes de como o fato ocorreu só são contados mais tarde, mas as consequências estão lá desde a primeira página.

Karina mora com os pais e com a irmã mais nova, mas não se sente muito feliz ou compreendida em sua casa. O pai sonha vê-la formada, a mãe é conservadora e submissa e a irmã Mariana faz o que irmãs mais novas geralmente fazem melhor, implicar. Enquanto isso, ela se sente cada vez mais desconfortável em suas roupas brancas e vê crescer uma vontade de ser livre e dona de si. Em uma olhada no Facebook, vê que Renata, uma antiga amiga, está precisando de ajuda no bar do qual é dona. Karina se oferece e, encantada com a vida noturna, se envolve cada vez mais com esse novo mundo.

Renata já tinha comentado com Karina como trabalhar em um bar ajuda a conhecer gente nova, e ela logo pôde comprovar a fala da amiga. Foram vários os homens que Karina conheceu no bar e com os quais acabou indo para a cama. Um encontro, uma conversa e a noite terminava em outro lugar. Liberdade? Talvez. Mas, para mim, essas relações superficiais e a rapidez com que ela passava de um drinque para o sexo tinham mais a ver com uma necessidade de retomada de controle do próprio corpo do que com liberdade sexual. Ao se relacionar com quem quer, como quer e onde quer ela afirma repetidamente que ela é dela e de mais ninguém, que ela é quem toma as decisões referentes ao seu corpo.

Quando Gustavo, o rapaz por quem foi estuprada, reaparece em sua vida, Karina tem a chance de elaborar melhor tudo o que passou. Ele não enxerga o que fez como um estupro nem vê a si mesmo como estuprador. Em uma longa, catártica e sincera carta, Karina desmonta um a um todos os argumentos usados por ele e mais tantos outros que ouvimos por aí. Poder colocar em palavras tudo o que viveu, sentiu e pensou é a sua chance de tirar de si qualquer resquício de culpa pelo que aconteceu e devolvê-la a quem pertence de verdade: Gustavo. A partir daí, Karina consegue tomar outras decisões em sua vida e passa de fato a se possuir, como afirma o título. 

Apesar do que o tema e a resenha talvez possam fazer parecer, o livro não é pesado. A autora conseguiu tratar o assunto com leveza, sem deixar de apontar coisas importantes, mas sem se prender a descrições exaustivas do ocorrido. A escrita é fluida e os capítulos são bem curtinhos, fazendo com que a leitura seja concluída quase de uma vez só.

Senti que no final as coisas aconteceram um pouco rápido demais, que as transformações pelas quais a personagem passou foram meio abruptas, quando poderiam ter sido mais gradativas. Mas isso não prejudicou de forma alguma a ideia de empoderamento feminino passada pela autora. 

Eu me possuo mostra no comportamentos e nos pensamentos da protagonista algumas das muitas consequências de ter sido vítima de um estupro, reafirma que a culpa nunca é da vítima e traz uma mensagem otimista de que, apesar das marcas e cada pessoa no seu tempo, é possível seguir adiante.

*Exemplar cedido pela Oasys Cultural

23 comentários:

  1. Carlinha, eu ainda não li o livro mas vi esses dias uma resenha que falava sobre o grande número de parceiros sexuais da protagonista, a pessoa ficou incomodada com isso. Eu achei brilhante a sua análise sobre isso na resenha. Só podia mesmo ser conclusão de uma psicóloga!! Hehehhe! Eu me interesso pelo tema e fico muito feliz quando vejo livros nesse sentido sendo escritos. Parabéns pra autora e parabéns pra vc pela excelente resenha. Bjksss!

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    1. Ah, Ju, que linda! Obrigada! Agora que reparei que coloquei "elaborar" e "catártica" na resenha. Baixou a Carlinha psicóloga mesmo na hora de escrever. Ahahahah! Beijos!

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  2. oi
    eu vi divulgação desse livro no facebook e achei bem interessante, penso que seria uma boa leitura já que trata de um tema tenso e atual, gostei da resenha.

    momentocrivelli.blogspot.com.br

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  3. Olá, Carla.
    Acho que li a mesma resenha citada pela Juliana hehe. Também me incomodei com esse ponto. Mas gostei de ver a sua opinião sobre o assunto. Não sei se leria esse livro, pelo menos não no momento, mas quem sabe no futuro.

    Blog Prefácio

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  4. Oi, Carla!
    Desde que vi a sinopse desse livro, eu fiquei super interessada. Recentemente descobri que uma amiga minha foi estuprada e isso me deixou bastante mal, mas ao mesmo tempo, mais atenta a algumas coisas.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  5. Bom dia, Carla.
    Que livro forte hen, minhas últimas leituras tem sido todas muito levinhas e até estou sentindo falta de alguma história mais pesada como essa.
    Assisti dois filmes ontem falando sobre estupro e como a vítima ainda era culpada pelos atos horrendos dos seus agressores.
    O triste é que é exatamente como você disse, todos os dias meninas, mulheres tem seu corpo, sua liberdade violadas enquanto são culpadas por isso.
    Fiquei feliz em saber que o final do livro acaba de uma maneira positiva.
    Beijo

    Te Conto Poesia ♥

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  6. Uau, eu nunca tinha visto um livro que abordasse o estupro na visão da vítima, obrigada mesmo pela resenha, com certeza lerei e agora acompanho o blog!

    ✦ ✧ http://bruna-morgan.blogspot.com ✧ ✦

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  7. Oi Carla! Eu estava mesmo pensando que fosse um livro pesado e que bom que não é, apesar do tema. A mensagem da história me pareceu bem positiva e achei isso inspirador.

    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  8. Oi Carla,
    Conheci esse livro hoje mesmo e me senti tentada a lê-lo pela temática forte, intensa, né?
    Bem feminista. Coloquei na lista!
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

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  9. Adorei a forma como você interpretou a questão dos diversos parceiros. Ainda não tive oportunidade de ler essa obra mas com certeza está na minha lista!
    Gislaine | Paraíso da Leitura

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  10. Oi Carla!
    Não conhecia o livro, mas fiquei interessada pois nunca li nada parecido e assuntos mais intensos sempre chamam minha atenção.

    Beijos,
    Epílogos e Finais

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  11. É incrível como um livro faz nós nos enganarmos. Eu li a sinopse e já pensei que o livro fosse pesado e pelo visto não é. Já li dois livros onde as personagens principais foram vítimas de sequestro seguido de estupro e fiquei bem assustada com a gama de cenas passadas para os leitores. Mas eu me sinto animada em relação a enredos assim porque ele nos mostra uma realidade que muitas pessoas insistem em esconder, podemos entendê-las melhor e até ajudá-las. Acho que vou ler depois, beijo!
    Leitora Encantada

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  12. Oi Carla!
    O titulo do livro me chamou a atenção de cara, mas não imaginei que fosse essa a temática.
    Que bom que a autora conseguiu tratar o tema de maneira série e leve ao mesmo tempo, mas uma pena que as transformações tenham acontecido rápido demais. Isso tira um pouco da verosimilhança da história, né? Mas parece ter sido uma ótima experiência de leitura.
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

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  13. Oi Carla,
    Não conhecia o livro, mas adorei a proposta.
    Tinha visto a capa e nem imaginava as mensagens fortes que trazia.
    Ótima resenha.

    bjs :*
    Nana - Obsession Valley

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  14. Carla, querida, muito obrigada pela resenha profunda e detalhada do “Eu me possuo”! De fato, o drama do estupro acontece com incontáveis meninas todos os dias, já aconteceu também comigo, por isso quis abordá-lo num livro. Você bem compreendeu que a carta que Karina escreve a seu estuprador é catártica e tem como objetivo desconstruir os argumentos dele, que se autojustifica como todos os criminosos. Também quis abordar os sentimentos conflitantes de quando seu estuprador é um homem conhecido, é alguém que você deseja, por quem está apaixonada. “Poder colocar em palavras tudo o que viveu, sentiu e pensou é a sua chance de tirar de si qualquer resquício de culpa pelo que aconteceu e devolvê-la a quem pertence de verdade: Gustavo”. Isso mesmo! Vítimas de estupro carregam uma culpa e um constrangimento que não lhes pertence. Interessante a liberdade sexual de Karina, que você tão bem aponta como sendo um processo de retomada do controle do próprio corpo, causar incômodo. Vivemos tão submetidas ainda ao machismo que não percebemos que um rapaz, da mesma idade, nas mesmas circunstâncias, fazendo as mesmas coisas que Karina faz, jamais seria tachado como libertino. Quanto à suposta superficialidade das suas relações, me permita comentar: às vezes a gente dá um único beijo num homem, apenas um, ou passa uma única noite com ele, apenas uma, e essa relação se torna extremante significativa para o resto das nossas vidas. É o que acontece com ela: Lúcio, que tanto a encanta, por exemplo, com quem ela passa uma só noite (bem que ela gostaria que aquela noite se repetisse, mas temos a reviravolta na trama que muda tudo), ensina Karina como amar o próprio corpo, é uma influência absolutamente fundamental e alguém que ela não esquece. Com Enzo ela aprende que sexo por vingança não vinga nada (nada nasce dele), nem preenche – importante aprendizado. Já Caio se torna seu melhor amigo para toda a vida, um parceiro precioso, alguém com quem ela pode contar. Tiago nem se fala: ele é sua loucura de estimação e a acompanha por todo o livro. Enfim, com cada homem ela aprende algo sobre si mesma, como você bem colocou, ela vai tomando posse de si mesma (após seis anos de dor, totalmente fechada para o mundo romântico-sexual). Termino te contando que recebo muitos depoimentos de leitoras que foram vítimas de estupro e tento acolhê-las, dentro das minhas limitações de escritora (não sou psicóloga, nem advogada, nem delegada de polícia, mas as posso ouvi-las com carinho, como Evelyn faria). Uma dessas meninas é LAMM. Você ouviu falar do caso de uma menina de 16 anos (LAMM) que foi estuprada pelo avô? Pois é, uma monstruosidade repulsiva. Mais repulsiva ainda (e, na minha opinião, um novo estupro, dessa vez moral) é a sentença do juiz que absolveu o criminoso jogando a culpa em LAMM, que ficou paralisada de terror durante a violência. A advogada de LAMM foi ao lançamento do “Eu me possuo” e alguns dias depois a própria menina pediu um autógrafo no livro (ela estava de passagem por São Paulo, pois é de São José do Rio Preto). Sugeri que nos encontrássemos para eu dar o autógrafo pessoalmente. Encontrei LAMM (que hoje tem 18 anos), sua mãe e sua advogada. Conversamos por quatro horas. Foi um encontro muito tocante! LAMM não fala sobre o ato em si, é por demais constrangedor, mas fala muito de como se sentiu depois (eu apenas ouvi, não fiquei perguntando nada para não invadi-la): ela conta seu drama e chora, conta e chora. Esta jovem está emocionalmente em carne viva não só pelo crime que seu avô cometeu contra ela, mas pelo segundo crime também, que é a impunidade e a decisão abjeta do juiz. LAMM criou a hashtag #TodasPorLAMM e uma fanpage com o mesmo nome. Quem quiser ajudar (e eu antecipadamente agradeço) basta curtir a página, compartilhar o caso e usar, nos comentários nas redes sociais, a hashtag #TodasPorLAMM. Logo mais vou publicar um vídeo na minha fanpage contanto melhor o caso. Obrigada, mais uma vez, pelo carinho, pelo espaço e pela sensibilidade. Vou compartilhar sua resenha nas minhas redes sociais agora mesmo. Beijo! Stella Florence

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  15. Olá, tudo bem? Não conhecia o livro, mas adorei conhecer. A capa do livro é muito bonita, mas nem imaginei que ele pudesse se tratar de algo assim. Gostei da sua resenha e já quero o livro!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  16. Oi, Carla.
    Nossa, amo histórias densas assim, principalmente quando aborda de forma inteligente, os abusos da nossa sociedade. Adorei a resenha, o livro já está na minha lista.
    Beijos! :D
    Borboletas de Papel | Fanpage

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  17. Ooi! Eu não conhecia o livro mas eu já adorei essa premissa? Parece ser bem diferente de alguns livros que tem por ai e curti. Beijos
    Estilhaçando LivrosCantar em Verso

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  18. Gente, adorei a premissa dele livro, é um tema tão recorrente, mas que ao mesmo tempo nunca é trazido para o mundo literário. Amei sua resenha e este livro com certeza entrou para minha lista de leitura!

    http://www.leitorasvorazes.com.br/

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  19. oooi
    tudo bem?
    Eu li a sinopse olhando para a capa e realmente a história condiz com o que está ilustrado.
    Tive vontade de chorar lendo alguns trechos da resenha. É triste DEMAIS saber que isso acontece diariamente com tantas pessoas.
    Vi também o comentário da autora e tenho NOJO de pessoas que estupram ou que apoiam isso. A sociedade tem que se chocar mesmo quando acontece, tem que discutir e lutar pelo fim disso.

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  20. Adorei a sua resenha <3 Precisamos de mais livros que abordam temas assim.
    #aculpanuncaédavítima
    Beijo*
    http://umminutoumlivro.blogspot.com.br/

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  21. Oi Carla!
    Não conhecia o livro, mas me interessei. E também fico revoltada sabendo quantos Gustavos andam livres por aí. Incrível que o estuprador nunca acha que está fazendo algo de errado né? Tenho muito medo desse mundo...

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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